Gilgante Gil
Um homem do tamanho do tempo
A meteorologia alertou: aquele sábado seria de pé d’água. São Paulo em seus tons de cinza não parou de gotejar até o início da noite. Ainda assim, o caos que acometeu a cidade não foi um impeditivo para que eu e mais 45 mil pessoas marchássemos de encontro a uma das pessoas mais solares do país.
O estádio do clube de futebol paulista nos recebeu para prestigiar Gilberto Gil, no espetáculo “Tempo Rei”, sua última turnê da carreira.
Da arquibancada era possível enxergar várias gerações coexistindo na expectativa de viver uma noite inesquecível. Filhas e filhos com suas mães, pais, tias, primos e avós animados para respirarem música pelas próximas três horas. Não qualquer música. A música de Gil.
O prelúdio da apresentação veio dos céus: fogos de artifício fizeram a alegria do público. Simultaneamente, a contagem regressiva dos telões nos preparava para a entidade entrar em cena.
Gil surgiu no palco com seu look monocromático em vermelho, acenando humildemente para aquelas milhares de pessoas que o ovacionavam. Era tudo de uma boniteza enorme: desde o visuais até a banda FODA que fazia a festa acontecer.
Sentada no meu lugar individual na arquibancada inferior, atrás de mim, em fila, duas senhoras, de seus mais de 60 anos. Suas vozes tomavam corpo cada vez que a setlist entregava as músicas que tinham algum significado para elas. A cereja do bolo foi a participação surpresa da noite, que fez com que as amigas deixassem seus assentos a fim de tentar entender se o Roberto Carlos no palco era algum tipo de miragem. Não era. Rapidamente, o celular de uma foi mirado em direção aos artistas e pude escutar a seguinte frase: “Vou mostrar pra Ionice. Ela vai morrer!”
No decorrer do show, Gil não deixou de comentar sobre a morte de Preta, sua filha talentosa e generosa que nos deixou precocemente este ano em decorrência de um câncer no intestino. Gil fala da morte com uma maturidade e sabedoria invejáveis.
De todas as sortes da noite, a que mais me marcou foi uma mãe e sua filha, que não encontraram assentos vagos e pararam na minha frente para curtirem o show do jeito que dava. A menininha não passava de seus 7 anos. Seu braço ia de um lado para o outro, em sincronia com seu quadril, enquanto seus olhos atentos miravam Gil no palco. A mãe era animada igual. Nas músicas onde a filha não sabia a letra, ela colocava no aplicativo do celular para que a criança pudesse acompanhar, e a empolgação da garotinha não era menor por isso. Sua presença me fez lembrar que é mesmo preciso ter fé nas crianças.
Quanto a mim, aplaudi de pé, cantei, dancei, me emocionei e apaixonei ainda mais não só pelo artista, mas pela pessoa que Gil é: para o público, para a sua família querida que o acompanhava no palco fazendo parte da banda maravilhosa e pelo homem revolucionário que ele foi em tempos sombrios.
Eu sentia no coração que precisava assisti-lo de perto nem que fosse uma só vez. A urgência do agora, a brevidade da vida e o descanso merecido que o artista terá me convidaram em boa hora. Fui feliz e sabia que seria.
Viva Gil ontem, hoje e sempre!
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Amiga, obrigada por compartilhar esse momento num texto tão lindo ❤️ Gil faz parte da minha vida, como faz da sua e da de um monte de gente. Te ler hoje me fez sentir como se estivesse lá com você.