O lar de dentro
Os sons do silêncio
No quadrado do meu quarto, há silêncio. Escuto apenas, de longe, o caminhar do meu cachorro pela casa. Ao lado da porta, a espada de São Jorge que minha mãe cultiva, decora e protege o ambiente. A janela, de um metro e oitenta, me traz um paredão cinza do edifício ao lado, mas também o infinito do céu, que, hoje, dou preferência para que esteja sempre azul-vivo. Ainda que essa imensidão já seja um barato, é inevitável não pensar, todos os dias, se o oceano estivesse ao alcance dos meus olhos — esses de visão tão duvidosa. Outro azul que me enche de graça são as íris da minha felina, que dorme horas a fio em sua cama suspensa.
A beleza do silêncio quando o mundo ainda desperta. O peso do silêncio quando o breu toma conta. Sempre no conforto do colchão. À esquerda, a mesa de canto apenas com o essencial: Kindle, fones de ouvido, dois colírios e o papel higiênico que denuncia minha alergia. Na gaveta, um bloco de notas, caneta preta e o álbum do meu projeto analógico de poder congelar o tempo.
Na janela da mente, transito de um canto para outro, sempre com a preocupação de me sentir em casa. A sensação de lar precisa me acompanhar.
Há controvérsias, eu sei, mas confesso: as paredes brancas à volta não me lembram consultórios odontológicos; para mim, trazem possibilidades.
Acima da mesa de trabalho, um lembrete: beira do mar. Portanto, num movimento de recuperar os sentidos, de olhos fechados, me teletransporto para o quarto que me garante apenas uma centena de passos até que eu possa, finalmente, avistar e ouvir o quebrar das ondas.
Ao voltar para o aqui e agora, ainda estou em casa, ainda me sinto em um lar.


Precisei dormir antes de comentar pq queria acordar capturando cada detalhe ao meu redor que me faz sentir num lar.
Você é uma artista das palavras!! E me dá vontade de ser artista também ❤️
Não sei bem explicar como, mas essa leitura tem som de onda quebrando e cheiro de brisa fresca. Aliás, tem um poder imenso de abrir caminho para a imaginação flutuar... Diria até que tem uma dose cavalar de teletransporte: Tô sentindo o refrescor daqui!
Paredes são incapazes de segurar uma mente aberta e uma alma verdadeiramente conectada com a beira do mar. Continue molhando os pés, mesmo que de olhos fechados, Rê.
Sempre te disse que é uma alegria imensa ser sua amiga. Tão grande quanto, é a alegria de te ler. Percorri cada palavra sorrindo, cambaleando júbilo. Viajei junto de ti com esse texto. Sou sua fãaaa, não consigo esconder 🫶🏻